Seriam apenas metros brancos de seda, zibeline e renda se – depois da devida modelagem, corte e costura – não fossem batizados de “vestido de noiva”. Juntos, carregam a responsabilidade de causar a sensação arrebatadora do “é este” durante a preparação do casamento. O preço acaba sendo proporcional ao protagonismo da roupa. Um modelo exclusivo, preferido ou ao menos desejado pela maioria das noivas – conhecido como primeiro aluguel –, não sai por menos de R$ 6 mil. Poderia ser salgado demais para um ano de contenção de gastos. Mas não há crise que adie a realização de um sonho. Ou pelo menos o sonho de casar. Dá-se um jeito.

Com o orçamento apertado, a professora Mônica Barreto, 34 anos, decidiu abrir mão do primeiro aluguel assim que começou a pesquisar os preços dos vestidos. “A verdade é que você paga pelo sonho, não pelo que precisa. Eu adaptei o meu para poder pagar”, resume. O casamento aconteceu no sábado (11), com um vestido já usado por outras noivas, mas que se encaixava no modelo ideal imaginado por Mônica. Ela, no entanto, não se sente menos realizada por a roupa já ter ido com outras ao altar.A mudança no comportamento geral é confirmada pelos lojistas. O movimento não diminuiu – segundo eles, ninguém deixa de casar –, já os lucros… “Senti mais a queda de faturamento em junho. Até 30%. Se antes 90% dos vestidos que eu alugava eram de primeiro aluguel, agora só são 40%.

O resto é segundo em diante”, diz a empresária Ana Peri, da Tulle. Em outra loja do grupo (com coleções diferentes), o sentimento é o mesmo. “Estão procurando coisas mais baratas, a gente entende. O primeiro aluguel continua para noivas de classes mais altas. No fim das contas, a crise afeta mesmo a classe média”, avalia a gerente da Sposa, Catarina Peri.Mas tem noiva que não abre mão do primeiro aluguel. E aí? Uma alternativa é adaptar o modelo e usar materiais mais baratos sem comprometer a qualidade. A tendência que vem desde 2013 e ainda predomina nas lojas do Recife é a segunda-pele com aplicação de renda (que dá a impressão da pele à mostra), decotes, mangas longas e saia com um pouco de volume. Esse estilo é, para a tristeza das noivas, um dos mais caros. “Cheguei a fazer um vestido todo em renda que saiu por R$ 9.500”, lembra Catarina Peri.Para se ter uma ideia, a renda francesa (a mais requintada) sai – a preço de atacado – por R$ 400 o metro. Já o o zibeline de seda (tecido usado na base do vestido) fica por volta de R$ 200 por metro. Um modelo padrão leva cerca de seis metros de tecido.

A boa notícia para as noivas que ainda não começaram a procurar a roupa do “dia D” é o velho clichê de que a moda muda. “O clássico está voltando. A procura por modelos mais sóbrios vem crescendo”, revela a proprietária da Luc Vest, Luciana Malta.Mas, além do alto custo dos tecidos, há muitos profissionais por trás de cada vestido – que levam em média três meses para ficarem prontos. Além das vendedoras, há o estilista, modelista, costureiras e alfaiates e bordadeiras. “Primeiro é preciso recortar toda a renda, depois alinhavar no tecido inteiro, costurar e depois colocar as pedrarias”, detalha a bordadeira Edneuza Gomes, sobre a própria função.Há quem classifique o gasto como desnecessário, mas quem lida com esse universo defende o contrário. “A noiva pode ser moderna como for, mas, quando fala em casar e provar o vestido, fica romântica”, observa a designer da Sposa, Júlia Becker. O fato é que, para muitas mulheres, o casamento é a soma da expectativa de uma vida inteira e todos os detalhes precisam ser contemplados, mesmo com adaptações no orçamento. Por que seria diferente com o vestido?

A analista judiciária Marcelle Lira, 28, argumenta: “Não tem como definir. Você se veste, olha no espelho e sabe que vai ser aquele. Não importa o que digam”. Poderia ser sobre a história de amor, mas o protagonismo do casamento ainda é do vestido da noiva.

Fonte: Crise não interrompe sonho do vestido de noiva ideal – Boa Informação