Guilherme Arantes “Nem os sertanejos escutam o que produzem”

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Guilherme Arantes “Nem os sertanejos escutam o que produzem”

Tércio Amaral

Aos 40 anos de carreira, o cantor e compositor Guilherme Arantes vive uma espécie de “Renascimento”, quase aos moldes do movimento dos séculos 15 e 16 que, após um período obscuro, protagonizados reforma e contra-reforma religiosas, recolocou as nações da Europa Ocidental na trilha do desenvolvimento cultural. Ontem à noite, em um show comemorativo no Teatro Guararapes, no Centro de Convenções, o belo garoto dos anos 1970 e 1980, que embalava multidões, demonstrou maturidade, olhar crítico sobre o próprio trabalho, mas sem deixar de tecer comentários sobre as cenas política e musical. E nesse divã, sua maior crítica foi destinada aos cantores sertanejos.

“Nem eles próprios escutam o que produzem”, disse o cantor ao se referir ao sertanejos, numa espécie de bate-papo com o seu público, que foi generoso em presença e participação na plateia. Guilherme Arantes, que vem sendo redescoberto e convertido num ícone pela nova cena musical da MPB, com nomes como Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci, criticou o ingresso de uma nova “onda cultural” no Brasil. No palco, em plena crise política, citou o ex-presidente Lula (PT). Disse que, em seu governo, o povo começou a ter mais acesso a bens culturais, mas sem qualidade. Para ele, não houve um “filtro”.

“Hoje as pessoas estão sendo progonistas no lugar dos artistas”, comentou ao se referir ao falto de shows de pagode e sertanejos serem realizados para comportar públicos “padronizados”, consumistas das próprias vaidades. “O que importa é fazer a self (no show) e não ter qualquer reflexão sobre a música”. Ironicamente, um fã, ao lado da reportagem do Diario, não tirou as mãos do celular e gravou a apresentação inteira, do começo ao fim. Bem, longe dessas reflexões sobre a própria vida e o cenário musical como um todo, o fenômeno sertanejo avassalador, que hoje é travestido de “universitário”, foi um dos responsáveis pelo período em que Arantes saiu de cena.

Mas, verdade seja dita, Guilherme também foi produto de um mercado. Afinal, boa parte de seus grandes sucessos foram produzidos sob encomenda para novelas globais. E o abuso do eletrônico em suas músicas sempre esteve em destaque aos olhos da crítica especializada. O que pesa ao seu favor são as canções de qualidade, cujas letras, além de marcarem época, foram interpretadas por titãs da música brasileira, a exemplo de Elis Regina (“Aprendendo a jogar”) e Maria Bethânia (“Brincar de viver”).

Além da autocrítica

Mas, como todo o show não é feito apenas de reflexões,  não seria falso afirmar que o público saiu plenamente satisfeito. Ao entrar na sua fase mais madura, Guilherme Arantes demonstrou que tem um passado a mostrar, mas também uma carreira que pode ser aperfeiçoada com o seu último disco, o “Condição Humana”, lançado em 2013. O público não se empolgou com as “novas músicas” apresentadas no começo do show, afinal, ainda são desconhecidas e não fizeram o sucesso daquele cantor do belo sorriso de décadas atrás.

A “Moldura do quadro roubado” é uma de suas músicas novas que os velhos fãs ainda não aprenderam, mas é tão atual que ele mesmo diz que teve o sentimento que “antecipou” o debate político que estamos vivendo agora.  A letra fala de pastores, de crescimento de favelas e da pobreza, como também da desesperança. Das novas que foram apresentadas, a “Onde estava você?”, que fala sobre amizades perdidas, estão entre as mais doces. O que faltou mesmo dessa nova safra foi a canção “O que se leva”. Talvez, essa é mais parecida com o que Guilherme produziu antes. É do tipo “chiclete”.

O show começou a esquentar mesmo da metade para o final. O público não resistiu a sucessos como “Cheia de charme”. O protocolo caiu nesse momento. Todos ficaram de pé, cantando e dançando. O ritmo continuou com “Lance Legal”, “Fã número 1” e o “Lindo Balão Azul”, esta última conhecida por encerrar suas apresentações. Paradoxalmente, foi no seu passado, com esses sucessos de 20, 30 anos, que Guilherme Atantes renasceu e demonstrou que é tão atual como antes.

Fonte: Guilherme Arantes: Nem os sertanejos escutam o que produzem