A banda é a mesma, os tempos é que são outros. O Skank lança nesta sexta (31) o primeiro de três EPs que compõem o projeto ao vivo Os três primeiros. Gravado em novembro no Circo Voador, no Rio de Janeiro, o novo trabalho recupera o repertório dos álbuns Skank (1992), Calango (1994) e O samba poconé (1996).

Nesta leva do lançamento digital – áudio e vídeo – serão lançados os novos registros de Réu e rei, Baixada news, Tanto, O homem que sabia demais, In (dig) nação e Let me try again. Em 14 de setembro, sai, da mesma forma, o EP de Calango (com oito faixas). Já em 28 do próximo mês, vem a público o EP de Poconé (também com oito canções).

Samuel Rosa, de 52 anos de vida e 27 de Skank, vem se adaptando aos novos tempos. E tem gostado. “Estou achando legal poder lançar um single nas rádios e nas plataformas ao mesmo tempo. Antes, quando lançava uma música nova, encontrava com um amigo e perguntava se tinha escutado. Ele dizia que não tinha ouvido rádio. Hoje não tem mais isso. Todo o mundo ouve, baixa, comenta. É muito mais fácil.”

E dá para ser diferente sendo o mesmo depois de tanto tempo de estrada. Algo parecido é a primeira canção da discografia oficial do Skank com letra e música de Samuel. Balada de letra amorosa – “Você bem que podia vir comigo/ Para além do final dessa rua/ O outro lado da cidade/ Ou algo parecida” é o refrão – dialoga mais com a produção da segunda fase da banda, a partir de Siderado, de 1998.

Intimista 

Conduzidas por violão e piano, traz a voz de Samuel num tom mais baixo – “eu queria sussurrar, criar um clima mais intimista” – e traz palavras que permeiam várias das músicas do Skank (tempo, cidade, rua). “Não sou um letrista fluente. Fui muito estimulado por meus parceiros mais honestos, que me disseram que eu conseguiria fazer letras, pois tinha boas ideias. Já escrevi algumas músicas, mas fazer um álbum inteiro seria um esforço maior, diferente da melodia”, comenta ele.

Só para deixar claro: na miríade de hits do Skank, alguns dos versos cantados nos shows levaram a mão do vocalista e guitarrista. Um bom exemplo é Balada do amor inabalável (de Maquinarama, 2000). “Eu que editei a letra, pois o Fausto Fawcett me mandou um pergaminho com duas horas de duração. Estava muito confuso, eu disse para ele, que me deixou editá-lo do jeito que quisesse.”

Algo parecido foi composta este ano. Já Beijo na Guanabara – “que tem uma onda do Skank do Calango e d’O samba poconé, com bastante metais” – com letra de Rodrigo Leão, autor de Saideira e Formato mínimo, estava guardada há muitos anos.

O EP desta semana é que deverá trazer mais interesse aos fãs do Skank, já que traz repertório menos conhecido. O disco original, lançado de forma independente em 1991 e pela Sony Music no ano seguinte, traz 10 faixas. Para a gravação ao vivo, seis foram escolhidas. “Acabamos nos desviando daquilo que a gente não gosta muito. Não é que não gostamos, mas ficaram insossas”, diz ele. Para a seleção, ele conta que, em certos momentos, a banda se sentiu interpretando canções de um outro grupo, pois se distanciaram daquele formato. “Mas, ao mesmo tempo, é a mesma banda, o que deixa a história mais divertida.”

Baixada 

Ao olhar o novo velho material, chama a atenção, por exemplo, a gravação atual de Let me try again. Ainda que a levada da gravação atual seja basicamente a mesma daquela de quase 30 anos – acrescida de alguns efeitos –, a interpretação segura de Samuel faz a música crescer. Baixada news também aparece renovada. E sua letra, tantas décadas depois, permanece absolutamente atual – “Zilda é uma mulher/ que mora na Baixada Fluminense/ Mãe de cinco filhos/ Cinco bocas pra comer”.

Os três primeiros é o quinto registro ao vivo do Skank. É também o de menor porte, levando-se em consideração que a plateia do Circo Voador não ultrapassa 1,3 mil pessoas, o que a torna mínima perto das 50 mil dos registros do Mineirão (2010) e do Rock in Rio (2011). “O público cantou muito os lados B. Acabou que o disco faz um contraponto com os anteriores”, afirma Samuel.

Isso porque alguns dos hits d’Os três primeiros já estão em sua quinta gravação ao vivo (Jackie Tequila e É uma partida de futebol, por exemplo). “Enquanto a gente existir vai que ter que defender essas músicas. Foram canções como essas que determinaram a popularidade da banda, coisa que usufruímos até hoje. Por outro lado, este disco faz uma correção histórica ao jogar luz em músicas que ficaram meio em segundo plano”, afirma o vocalista. Para ele, o primeiro álbum, muito conhecido em Belo Horizonte, “é quase inédito” para boa parte do Brasil. “Tem gente que considera Calango nosso primeiro disco.”

Com a turnê de Os três primeiros na estrada há quase um ano, o vocalista não sabe quanto tempo o grupo permanecerá com o mesmo show. “Já temos shows para o primeiro semestre do ano que vem. Se vamos ficar mais um ano, não sei. Mas a bilheteria vai muito bem, obrigado.” De certo, além das apresentações, Samuel só sabe que 2019 terá um lançamento com material inédito, o primeiro desde Velocia, o mais recente de estúdio do grupo, é de 2014. Em que formato, só o futuro vai dizer.

Sobre Skank (1992)
Primeiro CD independente do Brasil, foi gravado no estúdio do baterista João Guimarães, no Bairro Belvedere (mesmo estúdio onde o Sepultura gravou seu primeiro disco). O álbum teve tiragem única de 3 mil cópias – metade foi para as rádios. Nos primeiros 45 dias, a outra metade quase se esgotou. In (dig) nação, além de ter sido cantada pelos caras-pintadas durante o período do impeachment de Fernando Collor, a música também foi utilizada, no período, na campanha de Patrus Ananias para a Prefeitura de BH.

Sobre Calango (1994)
Foi o disco que fez o Skank virar gente grande, entrando para o grupo de artistas que vendiam mais de 1 milhão de cópias. A versão de É proibido fumar foi incluída no projeto Tributo ao Rei, em que novas bandas releram o repertório de Roberto Carlos. O disco trouxe vários hits – Te ver, Jackie Tequila e Pacato cidadão entre eles. Uma das mais divertidas, no entanto, é a A cerca, em que Samuel e Henrique Portugal emulam dois caipiras duelando. A canção é uma versão do calango, ritmo do Norte de Minas.

Sobre O samba poconé (1996)
É o disco mais popular do Skank e também o menos conhecido. Isto porque o sucesso avassalador de Garota nacional (que liderou o ranking da Billboard na Espanha por três semanas, entre outros feitos) fez com que parte do disco “desaparecesse”. Com 1,8 milhão de cópias vendidas, conta com a participação de Manu Chao em três faixas (Zé Trindade, Los pretos e Sem terra). Poconé é o nome de uma cidade de mais de 200 anos no pantanal mato-grossense.

Tags:, , ,

Leave a Reply